
2002 foi o ano que entrei para o Instituto de Artes da Ufrgs. Naquela época sonhava com o mundo das artes e tinha a mesma noção que qualquer leigo no assunto tem: Que os pintores clássicos eram o máximo, que deveria ser uma técnica dificílima pintar como Velasquez, que esculturas eram obras que eram feitas de argila e que se o artista quisesse dava um banho de bronze pra ter cara de metal. Visitar qualquer ateliê era uma dificuldade, pois mal sabia onde eles se escondiam e nunca me passaria pela cabeça que era só bater na porta. Acesso para a arte, pra mim, só por revistas, museu e quando muito uma galeria. Estar visitando uma galeria ou conseguir ser amigo da pessoa que cuidava da galeria era um feito. Quando visitava alguma exposição, quase em sua maioria, admirava a técnica do artista, muitas vezes ficava bem mais de um minuto olhando os trabalhos e tentando decifrar-lhes técnica ou sentido. Lembro de ter ido em uma ou duas exposições na abertura e me senti uma intrusa, achava que precisava de convite VIP para estar ali.
2003 - Logo no primeiro ano da academia, minha sede de me "in-turmar" era enorme. Meu fascínio por finalmente estar ali era tanto que em muitas ocasiões passei por ingênua, imatura e ansiosa, achando que meus primeiros rabiscos já poderiam ser a centelha da arte, como todos que se iniciam em alguma técnica. Comecei a conhecer alguns artistas e finalmente consegui acesso aos atelier onde ocorria essa grande mágica. Bati na porta de um deles e fui recebida com grande naturalidade e certo espanto (mais tarde descobriria que são muito poucas pessoas que visitam um atelier do nada...). Qualquer um que estivesse um semestre na minha frente eu já achava que podia ser um referencial. Lembro bem da primeira vez que sai em grupo da faculdade para sentarmos todos numa única mesa do Mariu´s na Osvaldo Aranha e cada um fazia um desenho ou mostravam uns aos outros a produção do dia, fiz alguns desenhos desse dia e ganhei alguns trabalhos que guardo até hoje como doce lembrança. Durante um bom tempo foi assim e me vi vivendo aquela espécie de boêmia acadêmica especial de quem faz arte. Tudo era motivo pra vinho e desenhos, para festinhas de desenho de observação, modelos e muito vinho e a arte se entrelaçava com isso e me sentia em 1890/1920 como se fossemos Dali, Gala, Anaïs, Picasso, Buñel, enfim...Naquele tempo as festas no Centro Acadêmico eram orgias de vinho e outras substânciass etílicas e fumacentas, mas por outro lado, muita gente se manifestava artisticamente, happenings, jam sessions, músicas e poesias profanas, instalações e performances, o IA efervescia, vivo sob a batuta insurgerente de Rodrigo Uriartt e Cia. Mas dai Rodrigo saiu, resolveram organizar tudo, proibir o cigarro, a bebida, a criação se tornou mais focada...se por um lado se tornou instrumento de profissionalização, por outro perdeu um pouco da alma...Ou eu, que estando terminando o curso comecei a me afastar e me levar a sério, questionar minha produção, dar-lhe um sentido que formalizasse meu trabalho de conclusão.
Entre 2004 e 2006 me apaixonei muitas vezes pela arte e seus artistas, e como amores de verão, logo o próximo fazia esquecer o último. Descobri que Velasquez era lindo na sua época, mas nos dias de hoje já teríamos a fotografia para registros do mesmo tema. Os surrealistas, apesar de uma boa referência até hoje, ainda assim davam muito mais importância aos temas do que aos aspectos formais da arte. Do meu ódio ignorante sobre arte conceitual nasceu um novo mundo de entendimento e possibilidades de interpretação tanto da arte como do próprio mundo. Passei pela Pop Arte e achei que haveria possibilidades dela se tornar contemporânea, mas acabei descobrindo da importância do contexto histórico. Aliás, descobri que existem os aspectos formais da arte, que não é reconhecer se ali existe um círculo ou um quadrado, mas que é um conjunto de critérios técnicos para se construir harmonias que sejam agradáveis ou não ao olhar. Descobri o que era algo desconstruído e que na sua reconstrução aplicávamos técnicas de composição. Descobri que qualquer um se expressa e que poucos querem meus sentimentos, mas que arte é reflexão, conteúdo de idéias, é muito mais que decoração.
Nessa época pertenci à vários grupos de atelier onde descobri a dificuldade de trabalhar em coletivo, mas também a delícia e a dor de poder comentar os trabalhos entre meus colegas. Foi a época em que meus conhecimentos sobre arte realmente floresceram, graças à convivência com Adauany Zimovski e Gerson Reichert. Foi através destes valorosos colegas que lapidei meu olhar, meus conceitos, e meu próprio processo artístico. Seria uma dica muito importante para quem deseja formar atelier, escolher bem os artistas com quem irá conviver, pois pode ser fundamental para seu desenvolvimento.
Aspectos formais, composição, dinâmicas de olhar, etapas de processo, paciência e diálogo com a obra e por fim, a importância dos estudos práticos, da produção permanente, das leituras, das pesquisas, de pensar em arte mesmo quando não está fazendo-a, das formas de percebê-la e finalmente dos aspectos de individualização.
Nesse período eu ia em todas as exposições que me convidavam, embora foi aos poucos que comecei a ser convidada. Valorizava bastante estes convites e era uma grande espectativa ir nas exposições e conhecer os trabalhos dos artistas, muitos que pouco conhecia. Íamos muitas vezes em bandos da faculdade e depois saíamos e conversávamos sobre a exposição que tínhamos visto. Olhávamos os trabalhos com interesse, embora nessa época já era mais difícil ter um momento de fruição que não fosse interrompido ou que fosse mais rápido, para logo em seguida poder gozar do momento social.
2007 as coisas já eram bem mais duras, mais sólidas, e minha apreciação da arte bem mais crítica, embora ainda tivesse muita flexibilidade em relação ao conceito de arte. Foi quando a Bienal B e seus 300 artistas cairam sobre mim. Foi realmente uma experiência incrível de diversidade, processo artístico e níveis de qualificação. Se ainda me faltavam alguns fatores de investigação para subsidiar minhas pesquisas, durante o gerenciamento deste grande projeto pude ter acesso aos mais diferentes processos dentro do sistema de arte. Insituições, políticas de marketing e financeira, políticas públicas para a arte, interesses do sistema erudito, falácias do dito underground alternativo, crueldades do sistema, a diversidade dos grupos de artistas atuantes e a personalidade de cada um destes grupos - os iniciantes, os maduros, os clássicos, os professores, os revoltados, os criativos e participativos, os queridos não-geniais e os grosseiros talentosos entre tantas outras personalidades artísticas- e uma enorme experiência em relação ao público da arte, que basicamente se compões de quem se envolve com ela e que pouco consome porque artista acha que já que é artista e não faz muito sentido comprar arte (???) e eu acho isso tão estranho... e nesse sistema aprendi o quanto artistas tem pouco auto-crítica, embora também aprendi o quanto é difícil se ter auto crítica enquanto não entende-se como o sistema funciona.
Nessa época só conseguia olhar os trabalhos correndo como se folheasse rapidamente uma revista, isso quando conseguia fazê-lo. O social da arte tornou-se tão impositivo que mal conseguia entrar na exposição e já me dividia em cumprimentos. Não havia mais papos sobre arte, não se falava da exposição em si e muito menos dos trabalhos. Os comentários ou eram felizes com a realização ou críticos sobre o conjunto da exposição ou do próprio projeto. Havia um excesso de coisas acontecendo ao mesmo tempo e eu estava no olho do furacão. Minha produção artística parou por completo, deixei-me levar pelos acontecimentos e submergi em meu próprio tsunami de informações que eu sabia que mais tarde seriam subsídios riquíssimos e importantíssimos, como o tempo comprovou que foram. Nessa época eu tranquei a faculdade. Vivia para o social da arte e a circulação em seus mais diversos nichos. Consegui me aprofundar nos meandros das políticas do sistema de arte, que como toda política, não são fáceis, muitas vezes cruéis, panelinhas ou supérfluos, e muitas vezes bem distantes daquilo que chamamos de espírito criativo, inovador, mas por outro lado, responsáveis pela sua manutenção e visibilidade.
Tomei um fartão de exposições e tive um daqueles tilts que parece que a gente vai desistir de tudo e o que se quer é ficar num canto quieto. Comecei a sentir uma grande falta de produzir. Me cansei da arte erudita e me joguei com tudo nas vertentes de arte urbana. Pesquisei graffiti, pixação, me dei conta de minha própria urbanidade e me localizei na cidade e no mundo. Mas meu tempo de produção era realmente muito restrito e me restringi à coletas de informações. Terminei esse ano muito cansada e estressada, mas realizada com os resultados que apesar de não ter tempo nem equilíbrio emocional para analisar, sabia que eram positivos.

2008 retomo a faculdade com a intenção de me formar no final do ano. A convivência com os colegas era apenas de cumprimentos educados ou trabalhos forçados a serem em grupos que eu resolvia com trocas de e-mails. não existia mais nada de convívio boêmio, nem análises de arte que não fossem exclusivamente pedidos pelo professor. Começo a refazer minha vida pós-Bienal B. É o ano da criação da AZUL Produtora Galeria, onde faço de minha casa, meu atelier e posteriormente espaço público de galeria. Torno-me marchand ("dos pobres" rsrsr) porque no início, assim como falta auto crítica ao artista amador, faltam ainda mais insformações ao marchand amador, pois são rpecárias as informações de referência para quem quer se aventurar neste campo de atividades. Pelo menos minha auto-crítica sabe que a AZUL caminhava muito mais no campo da experimentação de idéias do que no formato clássico de galeria. Me baseava nas experiências visuais locais da Subterrânea e da Feira de Arte Contemporãnea DESVENDA e também nos formatos e experiências da Casa da Xiclet, espaço em São Paulo similar à AZUL, apesar disso minhas curadorias e venissagens tinham uma personalidade própria bem original. Essa experiência tem me aproximado muito do público e me fez tomar cosciência de uma série de critérios estéticos presentes nas suas escolhas. Enfim, a experiência da AZUL é bem relatada no site www.azulgaleria.com.br
É claro que esta experiência como produtora e marchand, vieram compor com meus conhecimentos acadêmicos. O fato de ter um emprego e ainda as atividades da AZUL, esgotaram meu tempo para fruição e social paralelos. Fica muito difícil ir às dezenas de eventos artísticos semanais de Porto Alegre, tendo tanto por fazer. Esse foi um fator de modificação nestes poucos anos. De uma Porto Alegre com poucas opções de 2002, temos um efervescente e entusmecido cenário em 2008 e não tenho modéstias em afirmar que a Bienal B, criação minha, teve grande participação nesta guinada de produção artística da cidade. Mesmo afastando-me do projeto, a AZUL toma muito tempo e mesmo tentando minimizar as atividades paralelas, minhas relações artísticas e sociais são tantas que torna-se bem precária a qualidade de minhas interlocuções e intercâmbios, apesar do sucesso contextualizado dos eventos que promovo.
Os amigos da faculdade permanecem e, com seus trabalhos, carreiras e projetos formam uma rede, a qual me incorporo, de idéias híbridas e derivadas de fomento criativo, ampliando possibilidades de produção na área artística.

2009 - Atualmente tenho tentado resgatar meu tempo de produção em arte, estou voltando para a pintura, através da aquarela e dos aspectos formais da composição pictórica em experiências tridimensionais e performáticas.
Não vou mais em todas as exposições a que sou convidada e quando vou são exclusivamente por 3 critérios: OU ela é de pessoa amiga que socialmente obrigatoriamente devo prestigiar, OU estou passando na frente e acho um passeio agradável, OU é de algo que realmente considero que tenha uma técnica que possa me surpreender, tanto no sentido formal quanto nos sentido poético. Essa última são as exposições para as quais me reservo e tenho espectativas. Pode acontecer de uma mesma exposição ter as 3 qualidades.
Atualmente conheço quase todos os artistas de Porto Alegre, entre os maduros e os iniciantes, assim como já vi recentemente a produção deles, e isso me faz com que eu deixe de ir em suas exposições porque já sei o que vou encontrar ou estou cansada e pouco motivada. É claro que estes trabalhos, vistos mais demoradamente, teriam um outro valor e cresceriam em poética, mas se é pra ver assim, rapidinho, durante uma reunião social, onde a fruição normalmente é bem prejudicada, me abstenho ou deixo para um outro momento em que o acesso seja mais cômodo.
Quero tranquilidade, atuar brandamente e com qualidade, com atenção ao que estou fazendo e não na angústia de cumprir 5 editais ao mesmo tempo só porque eles existem.
Como dá pra ver, a forma de encarar uma exposição, muda muito entre o antes e o depois de uma profissionalização artística. Esse processo de amadurecimento da percepção é inerente, mas acho muito interessante notar como era essa percepção antes de tudo isso, pois é lá que reside a percepção do público de arte. A ingenuidade dos primeiros anos da faculdade é a mesma de quem faz um quadro pela primeira vez e se sente artista. E é esses parâmetros que regem os leigos em arte, para os quais todos os nossos conceitos de artista, nossas subleituras e arquétipos não passam de "arte contemporânea esquisita" ou para quem somos metidos e falsos. Ter uma interface amigável que nos aproxime uns dos outros, isso sim é uma arte.
